Segurança pública tem
estrutura precária no interior
Reportagem de A TARDE vai a 11 cidades e mostra principais problemas do serviço prestado ao público
SAMUEL LIMA
Homens, mulheres e adolescentes ocupando celas na mesma ala; salas usadas como depósitos de equipamentos e móveis destruídos; falta de viaturas, policiais e delegados; compra de material financiada pelos próprios policiais; prédios com estrutura danificada. A lista acima traz apenas uma amostra da realidade encontrada em delegacias da Polícia Civil em cidades do interior do Estado.
Com mais de 1.500 quilômetros percorridos em quatro dias, a equipe de A TARDE esteve nas delegacias de 11 cidades e flagrou situações como a de delegacias que precisam ser fechadas no horário de almoço ou quando é necessário que os agentes realizem diligências. E constatou que ainda há tensão na região de Umburanas – mesmo após passada uma semana do ataque de uma quadrilha de assaltantes que levou terror à pacata cidade do noroeste baiano.
O maior conjunto de deficiências foi encontrado em Piritiba (a 314 km de Salvador).
Famoso pela tradição das festas juninas, o município só conta com o investigador Luís Cléber e o auxiliar administrativo Marinho Francisco de Jesus como efetivo fixo da delegacia local. A prefeitura cede uma zeladora para a limpeza do imóvel e um guarda que fica tomando conta da delegacia à noite.
Quando A TARDE chegou à unidade, por volta de 12h30 da última terça-feira, encontrou a delegacia fechada – na porta, cinco gatos dormiam tranquilamente.
Dentro, 11 presos sem qualquer vigilância em um período que durou até as 14h30, quando os dois servidores retornaram. Entre os ocupantes das celas, um rapaz de 15 anos – em recinto separado, mas na mesma ala dos demais detentos.
Fuga de presos
Mal retornaram à delegacia, Cléber e Marinho tiveram que deixar o imóvel fechado outra vez, para efetuar a prisão de um suspeito de pedofilia no distrito de Porto Feliz, a 22 km da sede. Chances reais de fuga dos presos não foram descartadas. “Eles não fogem porque não querem.Basta que algum familiar chegue aqui com uma serra”, desabafou o investigador Cléber.
Há cerca de um ano, todos os nove detentos da unidade conseguiram fugir, conforme o delegado Ademar Alves de Souza, titular da delegacia de Miguel Calmon (a 368 km da capital), que também responde pela unidade de Piritiba. “Hoje, só tem um guarda na delegacia de Piritiba porque briguei muito com a prefeitura. É complicado, pois o policial deixa de investigar para tomar conta de preso”, reclamou o delegado.
Fica a cargo de um único guarda municipal vigiar durante a noite e de madrugada a delegacia de Capim Grosso (a 268 km de Salvador), que passa por reformas e ainda abriga 26 presos – muitos agitados com o fato de estarem abarrotados em celas degradadas.“ O chão aqui está afundando, bem em cima de uma fossa”, bradou um dos dois adolescentes – ambos de 16 anos – que são mantidos em cela separada.
A alegação dos policiais é a de que os menores de 18 anos permanecem encarcerados nas delegacias porque ainda não teriam surgido vagas nas unidades do Centro de Atendimento Socioeducativo em Salvador. De acordo com os policiais da delegacia de Capim Grosso, o material para a reforma seria custeado por comerciantes da cidade e que as obras já se estendem por mais de um ano.
Temor e insatisfação
Se moradores dos municípios que A TARDE percorreu não esconderam o temor com o avanço da criminalidade, delegados e policiais revelam insatisfação com as condições que precisam enfrentar para realizar seu trabalho. “A violência no interior é muito grande, maior que na capital, até pela falta de policiais”, alertou o delegado José Adriano da Silva, titular de Mundo Novo, que responde também pela delegacia de Tapiramutá (distantes 294 e 334 km de Salvador, respectivamente).
“O Estado não tem interesse na segurança pública porque é algo que não traz lucro. E a população cobra, quer que a gente resolva tudo”, indignou-se um policial de Miguel Calmon, que não quis revelar o nome. “A verdade é que o governo nunca deu apoio, tudo partia da prefeitura. Cheguei ao ponto de ter que rodar com carro roubado que era apreendido, tudo para não deixar o cidadão sem assistência”, comentou Abdala Jacobina, 71 anos, aposentado, que foi delegado de Miguel Calmon entre 1987 e 1992 – nomeado pelo prefeito da época.
“O delegado aqui, até que vem fazendo um bom trabalho, mas, de um ano para cá, estão matando muitas pessoas por aqui. No meu trabalho, já fui assaltado três vezes. Da saída da cidade até a Estrada do Feijão (BA-052), os motoqueiros estão assaltando direto”, assusta-se o frentista Élcio Almeida, 29, que trabalha em um posto de combustíveis em Mundo Novo, onde vive.
No distrito de Porto Feliz, Piritiba, a única representação da polícia é uma casa com a inscrição “posto policial” na fachada. Quem exerce o papel de policiais no povoado é um trio de guardas municipais, que se reúne no imóvel – que também é usado para guardar equipamentos ligados à torre de telefonia celular do local.
Em Tapiramutá, mesmo após 32 botijões terem sido furtados em apenas três meses, o comerciante Erivaldo Lopes de Souza, 43, desistiu de acionar a polícia. “Eu procurei a delegacia, mas não tinha delegado na época (há um ano). Tentei de novo por esses dias, mas ele estava viajando. Assim fica difícil”, resignou-se.
“O correio daqui já foi assaltado oito vezes e tem muitos roubos. É segurança zero. Até já pensei em voltar para a cidade grande. Olha que vim do Rio de Janeiro, há 20 anos, depois deter minha casa invadida duas vezes por ladrões”, observou o médico Jair Idelfonso de Souza, 60, morador de Tapiramutá.